“A gente cuida da reserva para o governo, em troca de nada”, diz extrativista do Quilombo Pedras Negras em Rondônia

"Eu perdi cinco mil pés de urucum. O fogo levou tudo”, lamenta um morador que não teve apoio do poder público.
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Voz da Terra
30 março 20255 minutos de leitura
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Quilombo Pedras Negras em São Francisco do Guaporé, RO. (Foto: @ Francisco Costa - Voz da Terra)

Francisco Costa - Voz da TerraEm 2024, a comunidade quilombola Pedras Negras, localizada no município de São Francisco do Guaporé, Rondônia, registrou níveis alarmantes de poluição por fumaça devido às queimadas na região. A concentração de material particulado fino (PM2.5) atingiu uma média de 44 µg/m³, ultrapassando em 193% o limite de 15 µg/m³ estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O Voz da Terra em parceria com o InfoAmazonia esteve na comunidade para documentar os desafios enfrentados pelos moradores. A viagem até Pedras Negras revelou o isolamento da região: são 132 km desde a sede urbana de São Francisco do Guaporé, percorridos em aproximadamente cinco horas de barco pelo rio Guaporé.

A comunidade, composta por cerca de 102 pessoas distribuídas em mais de 30 famílias, depende do turismo de pesca, extrativismo de castanha e agricultura para sua subsistência. 

Mas as queimadas comprometeram essas atividades econômicas em 2024. A densa fumaça impediu a aterrissagem de aviões com turistas, resultando em um prejuízo para os proprietários de pousadas estimado em mais de R$ 232 mil devido à perda de alimentos e bebidas estocadas para a temporada.

Além do impacto econômico, a saúde dos moradores foi severamente afetada. A infraestrutura de assistência médica limitada da comunidade, dificultou o atendimento adequado durante esse período crítico.

O município de São Francisco do Guaporé, onde se situa Pedras Negras, possui uma população de 16.286 habitantes e tem sua economia fortemente baseada na pecuária. 

A região do Vale do Guaporé, além de sua importância econômica, é reconhecida por sua riqueza ambiental e cultural, abrigando diversas comunidades tradicionais e quilombolas.

Castanhais já estão florescendo, mas a safra de 2025, não será a mesma dos anos anteriores. (Foto: @ Francisco Costa - Voz da Terra)

Castanhais viraram cinzas

A coleta de castanhas, tradicionalmente realizada entre janeiro e março, também foi prejudicada. Apolônio de França Neto tem 52 anos, vive no Vale do Guaporé e é ex-presidente da Associação Quilombola de Pedras Negras. Patriarca da comunidade, agricultor e extrativista, Apolônio narra a história de sua terra como quem preserva a própria vida.

Nos últimos anos, as mudanças climáticas e a falta de apoio do governo afetaram a produção. “2023 foi seco. 2024, nem colheita teve. Tudo queimado”. 

Apolônio lembra que já colheu até 4 mil kg de urucum, mas em 2023 só conseguiu 1.500. “Vendi a R$ 18,00 o quilo, só dá pra manter a família. A castanha foi um fracasso (nas queimadas). O urucum queimou. A culpa é da seca e do abandono."

O relato das queimadas de 2024 revela a negligência. “A gente avisou a SEDAM, o IBAMA. Só mandaram ajuda depois que o fogo já tinha destruído tudo. Chegaram dez brigadistas, só isso. Viver aqui é viver de resistência. Quem não gosta, vai embora."

A comunidade sonha em implantar uma indústria de beneficiamento de castanha. "Se (a castanha) sair embalada daqui, com carimbo nosso, vale mais. Mas sem apoio, morre na mão do atravessador." 

Apolônio diz que o projeto já foi debatido com parlamentares e técnicos, mas nunca saiu do papel. "A reserva do Cautário tem tudo. A nossa aqui, nada. Nem se compara. Se a gente tivesse uma beneficiadora aqui, a castanha ganhava valor." Os coletores de castanha costumam vender toda produção para compradores bolivianos.

Imagem aérea mostra cortina de fumaça e a devastação do fogo no Quilombo em 2024. (Foto: Corpo de Bombeiros - Divulgação)

O Quilombo

O morador diz que os primeiros habitantes da comunidade eram famílias quilombolas, escravizados que fugiram de Vila Bela, no Mato Grosso, por volta de 1717. 

Alguns se estabeleceram às margens do Rio Piolho, outros desceram até encontrarem um morro com visão estratégica no Guaporé. 

"Aqui dava pra ver quem vinha de cima e de baixo. Escolheram esse lugar para se proteger da captura. "Esse povo chegou aqui fugido, sem arma nenhuma. Só com coragem. Coragem e sofrimento."

Apolônio França - patriarca do Quilombo Pedras Negras. (Foto: @ Francisco Costa - Voz da Terra)

O território de Pedras Negras foi reconhecido como quilombo pela Fundação Palmares em 2005. Desde então, a comunidade luta pelo título fundiário definitivo. Segundo Apolônio, esse é o principal sonho: ter o documento que garanta às famílias o direito de viver e produzir na terra onde estão há séculos. "O governo criou uma reserva aqui sem consultar ninguém. Jogaram de goela abaixo. O título coletivo é a única forma de proteger essa terra. Se fosse título individual, já tinham vendido tudo."

A criação da Reserva Extrativista de Pedras Negras, em 1995, sobreposta à área da comunidade, é vista por ele como um obstáculo. “Se o governo quer fazer reserva, tem que apoiar quem vive dentro dela. Mas aqui a gente cuida de graça. Nem audiência pública fizeram. A gente vive abandonado”, desabafa.

Apolônio se orgulha de ter articulado o início do turismo em Pedras Negras. “Ninguém acreditava. Hoje tem até avião pousando aqui. Quando começa a temporada, não tem mão de obra suficiente.” 

Para ele, o turista que vem de avião deixa mais renda na comunidade do que o que chega de barco. "Teve que o Ministério Público mandar brigadista. Quando chegaram, metade do castanhal já tinha queimado. "O turismo foi nossa salvação. Eu trouxe o turismo pra comunidade."

A população da comunidade caiu de 70 para cerca de 30 famílias desde os anos 1980. “Só ficou quem ama isso aqui.” Hoje, vivem cerca de 72 pessoas. "Aqui é onde eu cresci, onde minha história tá. A igreja é o cartão postal da comunidade."

Prédio da Igreja Católica no Quilombo Pedras Negras, RO. (Foto: @ Francisco Costa - Voz da Terra)

A construção da igreja começou em 1935 e terminou em 1943. É o ponto de encontro das famílias e sede de festas tradicionais como a do Divino e a Imaculada Conceição, que já dura mais de 100 anos.

De acordo com Apolônio, a comunidade tem posto de saúde e atendimento mensal de médico. Mas o barco-hospital do Estado raramente atende a região como deveria. “Vai pra Costa Marques, onde tem hospital. Quando chega aqui, só dá tempo de ancorar e ir embora. Saúde aqui tem. Mas o barco-hospital é uma vergonha."

O herdeiro dos fundadores do Quilombo, finaliza com um desejo claro: que a comunidade tenha o reconhecimento oficial da terra onde vive há mais de 300 anos. "Porque já é nossa. Só falta o governo reconhecer. Nosso sonho é simples: ter documento que diga que essa terra é nossa. Não com blá-blá-blá. Com papel e assinatura."


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